
A sinaleira fecha, eu freio, o carro do lado avança, quase atropela gente, gente com sacola até no pescoço, feliznatal, sinal verde e vou-me, estaciono e entro no banco, a porta apita, “será que é o relógio?”, pergunto fazendo mímica, o guardinha tem expressão de disciplinador de escola, retiro a senha, fila graúda, choradeira de criança, alguns celulares cantam, descubro que a Janete vai passar o natal na praia, “Lá em Areias, eu e a Janete!”, a mulher de sombra-violeta-nos-olhos diz, um senhor de bombacha se queixa da demora, quase dou corda pra ele, fico quieto, agência sem ventilação, rostos cansados, dezembro, saio do banco e sou panfletado, “sem compromisso”, diz o rapaz, a calçada está estreita, o vendedor de cd me atrapalha, Zezé, NX Zero, Funk-da-apertadinha, esquivo-me, uma senhora de cabelo muuuuito comprido esbarra em mim, cabelão fora de contexto, calo-me, sou panfletado de novo, mãe Araçá, vidente e conselheira, baita conselho, o vendedor de cinto grita, promoção, faço um ziguezague, bato em alguém, desculpa aí, um pimpolho deixa cair o sorvete no chão, buá, a sinaleira para pedestre está vermelha, espero, o rapaz ao meu lado mete o pé na sarjeta, o carro buzina, xingamento, atravesso, música alta nas lojinhas da Júlio, vendedora com barriguinha ao vento, chiclete em bola, apresso-me, colarzinhos e lenços inundam a calçada, ziguezagueio, distingo uma mulher-da-vida, shortinho pra lá de curto, cada um na sua, é preciso tocar adiante, limpo o suor, eu sou mais uma formiga operária no formigueiro, formigueiro de entreveros, por que será que a vida ficou desse jeito?, quase pergunto para o homem fantasiado de Kiko [o amigo do Chaves] que sorri e convida-me para entrar ali na lojinha, “sem compromisso”, diz o Kiko.
________[imagem: Os Simpsons]