textobreve.blogspot.com




terça-feira, 24 de abril de 2012

Sextas-feiras, pág. 2

Ganhei uma coluna semanal no jornal Folha de Caxias [Sextas-feiras, pág. 2].
Cronista?
Periodista?
Colunista?  
Noticiarista?
Anotador?

terça-feira, 27 de março de 2012

Ação de entrevistar

A mamãe, Dona Albani, pediu e então disponibilizo aqui a entrevista [véspera do lançamento do meu livro] na Rádio Frispit, rádio da moçada que estuda jornalismo na UCS, moçada supertalentosa.
http://www.frispit.com.br/site/?p=2996

sábado, 3 de março de 2012

Cartilha cicloativista

Observei, li, experimentei, e então bolei uma breve cartilha... Andar de bicicleta é + do que simplesmente acomodar o bumbum no selim e pedalar. É necessário atilamento, olho vivo, tino, faculdade de julgar. Se você é um ciclista urbano, é imperativo manter as ideias alinhadas, eis as recomendações:
1) Pedale sempre na rua, no sentido correto. Jamais na calçada.
2) Não pedale colado nos carros estacionados [sempre há tios que abrem a porta de repente].
3) Respeite o semáforo vermelho, sem exceções.
4) Ao dobrar, acione o pisca-pisca [o seu braço], um movimento sutil e rápido. 
5) Se houver ciclovias, o capacete é dispensável. Na rua, é legal usá-lo.
6) Ciclistas não são obrigados a pedalar velozmente. Se algum carro atrás de você buzinar, pode mostrar o dedo.
7) Evite ziguezagues faceiros. Mantenha uma linha sóbria.
8) Pedalar após o entardecer = luz vermelha [traseira] e branca [dianteira].
9) Você não é obrigado a trajar roupas justíssimas de ciclista – eu vou para o trabalho de bicicleta, com trajes casuais.
10) A sua bicicleta é um veículo normal e frequente, “você não está atrapalhando o trânsito, você é o trânsito”  máxima cicloativista.
Senhores motoristas:
a) É lei: carros devem manter a distância-lateral-mínima de 1 metro e meio.
b) É lei: a bicicleta tem preferência, portanto não buzine por buzinar.
c) Se não tiver espaço para ultrapassar a bicicleta, você não deve pressioná-la a andar mais rápido. Fique atrás, decentemente.
d) Sorria para o ciclista, pois afinal ele está lhe ajudando: é um carro a menos na rua, menos fumaça, menos barulho, menos engarrafamento.

__imagem: Diários de Bicicleta, de David Byrne – livro que abre a cabeça, e sem anestesia.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Woodstock é aqui

Caxias amanheceu com ares de transgressão. Rock às 10h30min.
Não é normal. Piazada com camiseta do Kiss + chimarrão.
Espalhei protetor solar e joguei-me na Woodstock-Caxiense.
Sim, Woodstock! O estacionamento da UCS virou fazenda-rock.
Harleys guidom alto, tattoos, all-stars, broches paz-e-amor, calças de couro.
Expressão variada. Vestígios de contracultura.
Também havia vovôs e vovós, e picolé de graça (viva o rock!)
Orquestra da UCS misturada com HardRockers.
Ai se eu te pego ficou de fora. Woodstock não é brincadeira.
I Wanna Rock N Roll All Night (Morning?).
Tocaram até Raul. Não sei você, mas eu sempre preferi ser essa metamorfose ambulante.
Temos a Festuva, sei. Mas agora também vamos de Woodstock \o
Caxias é multi, é panelão cultural, é Queen às 10h30min!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

breve refúgio


Um breve refúgio e filosofada enquanto [como bem disse Eduardo Bueno, no posfácio de On The Road], "enquanto nós permanecemos aqui, nessa terra irreal, com nossos corações reais”.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Ali no centro

A sinaleira fecha, eu freio, o carro do lado avança, quase atropela gente, gente com sacola até no pescoço, feliznatal, sinal verde e vou-me, estaciono e entro no banco, a porta apita, “será que é o relógio?”, pergunto fazendo mímica, o guardinha tem expressão de disciplinador de escola, retiro a senha, fila graúda, choradeira de criança, alguns celulares cantam, descubro que a Janete vai passar o natal na praia, “Lá em Areias, eu e a Janete!”, a mulher de sombra-violeta-nos-olhos diz, um senhor de bombacha se queixa da demora, quase dou corda pra ele, fico quieto, agência sem ventilação, rostos cansados, dezembro, saio do banco e sou panfletado, “sem compromisso”, diz o rapaz, a calçada está estreita, o vendedor de cd me atrapalha, Zezé, NX Zero, Funk-da-apertadinha, esquivo-me, uma senhora de cabelo muuuuito comprido esbarra em mim, cabelão fora de contexto, calo-me, sou panfletado de novo, mãe Araçá, vidente e conselheira, baita conselho, o vendedor de cinto grita, promoção, faço um ziguezague, bato em alguém, desculpa aí, um pimpolho deixa cair o sorvete no chão, buá, a sinaleira para pedestre está vermelha, espero, o rapaz ao meu lado mete o pé na sarjeta, o carro buzina, xingamento, atravesso, música alta nas lojinhas da Júlio, vendedora com barriguinha ao vento, chiclete em bola, apresso-me, colarzinhos e lenços inundam a calçada, ziguezagueio, distingo uma mulher-da-vida, shortinho pra lá de curto, cada um na sua, é preciso tocar adiante, limpo o suor, eu sou mais uma formiga operária no formigueiro, formigueiro de entreveros, por que será que a vida ficou desse jeito?, quase pergunto para o homem fantasiado de Kiko [o amigo do Chaves] que sorri e convida-me para entrar ali na lojinha, “sem compromisso”, diz o Kiko.

________[imagem: Os Simpsons]

domingo, 11 de dezembro de 2011

Humildade

Humildade sf (lat humilitate) 1 Modéstia. 2 Pobreza.

Clairson [Clair’s son] fazia parte da classe C. É sabido que Clairson era um bom metalúrgico, batia o cartão-ponto com orgulho, cumprimentava companheiros e superiores aos sorrisos, não dizia palavrão... Clairson falava pouco, mas quando abria a boca era sempre educado e elegante, ainda que com ingênuos erros gramaticais. Mas Clairson não se importava, ele mesmo fazia chacota da sua desabilidade com a oralidade. Sim, Clairson era espirituoso e bola-pra-frente... Clairson vivia de aluguel e precisava sustentar os três filhos: Edílson, Jaílson e Rovílson. A casa era precária e havia pequenos buracos na parede do toalete [imagine você a aflição no inverno]... Clairson era um pai amoroso e esposo solícito. Nos sábados, ele lavava a louça e organizava o bidê. Desempenhava com otimismo o papel que a Providência escrevera no seu fichário terrestre, e acreditava piamente numa vontade superior. “Ele está vendo, Ele está vendo”, Clairson repetia mentalmente no raiar de cada nova repetição... Clairson era envergonhado e jamais expunha as suas ideias no trabalho. “Um ótimo ouvinte”, diziam os outros metalúrgicos opinativos. “Um companheiro preocupado com o bem-estar alheio”, diziam as secretárias da metalúrgica... “Pois é, o Clairson é mais um brasileiro humilde”, disse o inspetor de qualidade para o gerente de vendas, no refeitório, na fila do café, depois do almoço de um dia repetido. Por coincidência, o humilde Clairson estava passando atrás do inspetor de qualidade bem na hora do comentário, escutou, disfarçou e fez um ziguezague para não ser percebido... Clairson não entendeu o contexto do comentário sobre ele, e naquele dia foi para casa ponderando [do seu jeito humilde] como jamais havia ponderado antes: “Mas será que o filhodamãe quis dizer que eu era humilde de humildade de modéstia, ou humilde de humildade de pobreza?”.

_______[imagem: Pierino Massenzi]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Causas e consequências

Prova escolar. A profe de História lá do São José, a Conceição, caminhou distraída e então eu puxei a cola da manga do meu moleton. Segui confiante com os artifícios de transgressor. Pus-me a burlar as regras, lendo as CAUSAS e CONSEQUÊNCIAS das revoluções. Eu as escrevera com letra miúda, de formiga, para que tudo coubesse no papelzinho. Foi que, num lance rápido, a Conceição chegou pelas costas e flagrou-me, o bafo quente da sua ira a pousar no meu cabelo. Não perdi a dignidade ou desviei o olhar. Fiquei sereno, a cabeça atrevidamente alta. Acredite, enquanto a Conceição discursava, experimentei uma sensação de quietude, tipo aquela que os budistas vivenciam quando abraçam o Nirvana. Senti uma tranquilidade até então desconhecida pelo meu corpo de 13 anos, vai entender. A profe mostrava-se indignada e falante, passava um sermão demasiado, olhos de Caronte. E eu ali calmo, um Buda. O Fernando de Matos Alves, o mais valente dos colegas, baixou o nariz e se encolheu, fato que contaminou a turma toda, pois cabeças amedrontadas apontaram para baixo. E eu ali de queixo erguido, um galo. A profe chispou, para em seguida tirar a caneta vermelha do bolso e sentenciar um zero na minha prova. A autoestima da turma ficou em frangalhos, todos bem abaixadinhos e com medo do impulso justiceiro da profe. Posso afirmar que ela, na sua xingaria, usou frases e alegorias dramáticas dignas de William Shakespeare, um monólogo arrebatador [mas ela estava com total razão; “grande abraço, Profe!”]. Naquele dia, não me atrevi a dizer piu. Aprendi, na literalidade, que uma mera burlada de regras pode ser a CAUSA da revolução de um professor, com CONSEQUÊNCIAS bem avermelhadas no boletim da gente.

_______[imagem: mostrandoatitude.blogspot.com]

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Dia após dia

Ali, pensativo, ele caminha. Um universo de burocracia para resolver na rua, um universo de inquietações não-burocráticas para resolver na cabeça.

______[imagem: Bernard Safran]

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Paradigma arigó

Em Caxias, num trecho de rua central, não poderemos mais estacionar o carro na sarjeta, para melhorar o trânsito. Ótima ação!, pois sem o freia-e-breca de quem procura estacionamento a fila de veículos fluirá. Porém [transatlântico porém], é um equívoco transformar o espaço de estacionar numa nova pista para máquinas rolarem. Matemática básica: pista extra para carros = fumaças e barulhos extras... Mais importante do que faixas adicionais para carros, assim medito, é priorizar o aconchego das pessoas que optam por se deslocar a pé, sem gerar barulho de motor-rasgado-e-buzina, sem gerar fumaça assassina de escapamento... Caxias não é Copenhague, cidade cuja mobilidade urbana está de parabéns, mas poderíamos tentar imitar as táticas dinamarquesas. Já que não cogitam construir uma ciclovia no centro caxiense, então a coisa sensata a fazer [ao invés de estimular carros] seria elaborar na Rua Sinimbu calçadas mais prolongadas com árvores estilo fábula infantil, calçadas mastodontes com plátanos lotados de bem-te-vis, cafés, arte, espaços criativos sem canos fumacentos... Por enquanto [que pena], o nosso paradigma ainda é automobilístico, ainda é meio que arigó.

______[*Arigó: pessoa que tem capacidade intelectual assaz limitada, às vezes ingênua, tola. Bocoió]______[imagem: inspecao.blogspot.com]

domingo, 30 de outubro de 2011

Bê-a-bá

Sempre que conhece um novo homem, a Cláudia, sem conseguir se policiar, repete os mesmos velhos ingênuos erros. Meio que deixa de ser ela mesma, meio que força a barra para tentar agradar o novo par, numa tática imatura. Ela não se liga que os namorados percebem essa necessidade que ela tem de querer sempre agradar, de querer sempre fazer a relação dar certo... E mais um caso termina.

É indisfarçável, quando a Cláudia está de namoro, sem querer, ela fica com um medo terrível de que as coisas não vão vingar, e então recua, perde voz, deixa de dar opiniões importantes, deixa o parceiro tomar conta da carruagem. A relação segue por um período, o cara gosta do feeling do volante, mas já já a gasolina se vai, pois o rapaz percebe que a Cláudia abriu mão de algo que é o bê-a-bá da mulher interessante: naturalidade de comportamento, traquejo com a autoestima, rédeas dos próprios passos.

A Cláudia é uma mulher articulada e de conteúdo. Acontece que ela [não se sabe o motivo] fica com essa paralisante impressão de inferioridade e insegurança quando assume um namorico. Soubesse ela que os caras preferem as mulheres que não mudam o gingado de ser, as mulheres que estimam pelo próprio espaço, que não deixam transparecer o medo-de-perder-o-namorado... E mais um caso expira, é dolorido... Se ao menos a Cláudia conseguisse segurar um pouquinho mais o “eu te amo e vou fazer de tudo pra dar certo”. Ninguém quer alguém que exagere no negócio de fazer-dar-certo.

________[imagem: Laura Nehr]

domingo, 23 de outubro de 2011

Plus

O avião azulado encosta no asfalto quente do aeroporto de Campinas. Os caras que estão a matracar ao meu lado discutem sobre o que deverá ser tuitado em seguida. O diálogo é mais ou menos assim:
- Larga logo no foursquare.
- Claro!
- Visibilidade.
- Networking é tudo.
- Tá interligado, o mundo é a rede.
- Redezona.
- Cê tem que jogar mais informação lá no seu perfil.
- Meu, cê tem razão, networking é tudo.
- É um plus, é um plus.
Já no desembarque, espio o relógio e decido que é o momento de buscar um desjejum adequado, diferente dos biscoitos e cafés chochos de aeronave. Então, acomodado numa mesinha bamba do aeroporto campineiro, anoto o diálogo que eu recém escutara, e decido que no domingo postarei no meu blog, pois o mundo é a rede, networking é tudo, é um plus.
I was at Aeroporto Viracopos (Campinas - SP) w no one else.                      
4sq.com\sowhat?

domingo, 16 de outubro de 2011

Coisas da literatura

Segunda passada, na praça caxiense Dante [e o busto de Dante marcou presença], lancei o meu primeiro livro. Senti-me quase um escritor. Sim, porque há uma discreta diferença entre ser escritor e ter um livro publicado – mas isso é argumento pra outro texto. Dilatada foi a surpresa quando vi uma fila se formar na frente da minha mesa de madeira rústica. A atmosfera estava ótima! Amigos de longa data, amigos que conheço há pouco tempo, familiares, professores, rostos desconhecidos, que tive o prazer de conhecer e trocar uma rápida ideia, obrigadão pela presença! Grazie também aos escritores e poetas que foram me prestigiar: Marco de Menezes, Marcos Kirst, Dudu Oltramari, Maria Helena Balen, Rafael José dos Santos, Eduardo Dall’Alba. Senti-me um Jack London. No instante da dedicatória, peço desculpa por alguns nomes que esqueci [poxa, eu estava meio elétrico!]. Coisas da literatura.

Feira do livro é território surpreendente. Em duas semanas, conheci gente dessemelhante, com conteúdo que me deixou só-ouvidos. Escutei histórias e aprendi. Tomei expressos-açucarados na boa companhia de escritores e leitores. Acomodei-me no leiturário, a bisbilhotar algum livro recém adquirido. Vi criancinhas dando maduros palpites literários para os papis. Observei gente lendo em voz alta, voz muda. Testemunhei engraxates a engraxar sapatos de velhinhos-leitores acomodados no palco principal. Vi livreiros risonhos com as vendas e repórteres a entrevistar leitores encabulados. Perambulei, como todos que fizeram parte do universo da Feira do Livro de Caxias... Escuta só: ali no bastidor, troquei ideia com Humberto Gessinger [tenho uma coisa em comum com o cara: a Editora Belas-Letras], e conheci um camarada chamado Zé, já de ampla idade, com barba branca-longa-e-trançada, jeitão hippie, articulação oratória de um pensador, desenvoltura de um artista, inteligência de um legítimo precursor, e com ideias culturais que me fizeram ficar novamente só-ouvidos. Coisas da...

domingo, 9 de outubro de 2011

On The Road

Admiro bastante quem decide sair do itinerário batido do dia a dia para alguma peripécia espontânea e inesperada. E os caras que resolvem dar um tempo na correria insana do casa-trabalho-casa para sair de bicicleta pelas estradas deste mundo são os que mais me entusiasmam. Há fortuna em sentir o vento abraçar o rosto e limpar a preguiça existencial... Há fortuna em experimentar o sol espantar os nossos fantasmas imaginários...

Bem. Na semana que passou, a minha alegria começou a pular feito uma menina que ganhou uma boneca nova. Acontece que o meu primo-afilhado, o Felipe, está planejando uma travessia de bike Caxias\Floripa [topei na hora, com o miocárdio excitadíssimo!]. Embora as estradas brazucas não sejam lá tão propícias para bike-trips espichadas, eu estarei a pedalar pela beirada estreita da rodovia-highway. Como negar essa experiência?

O nome da minha cara amiga-de-duas-rodas é Amélia, e ela já está bem impaciente, com o sorriso no guidom. Mas enquanto o belo dia de colocá-la no asfalto não chega, eu continuo a viajar sozinho por uma outra estrada, a longa estrada mística de Jack Kerouac, On The Road [e o bom de viajar por páginas é que o acostamento é sempre largo e não há o mínimo risco de furarmos o magro do pneu]. Valeu aí, Jack.

+++

Amanhã, dia 10, às 18h, é o lançamento do meu Sala de Embarque, na Feira do livro de Caxias do Sul.

domingo, 2 de outubro de 2011

Feira do Livro

A praça Dante Alighieri, em Caxias do Sul, mais uma vez cede espaço para a Feira do Livro. No meu conceito, as barraquinhas da feira são “expositoras de universos”, já que pelas estantes abarrotadas há livros que carregam universos inesgotáveis e peculiares [o que será que pensa o busto de pedra de Dante Alighieri, que está ali na praça espiando a feira?]. Já fiz uma aquisição, e prometi voltar lá para garimpar mais títulos que envergarão a minha prateleira.

Preciso confessar. Esta de 2011 é uma feira muito especial para mim. Ontem, perambulando pela praça, vi o meu livro Sala de Embarque à venda na barraquinha da Editora Belas-Letras. Acho que agora entendo a exultação que todos os pais sentem quando observam os seus pimpolhinhos se darem bem no colégio. Virei pai, e o meu filho já saiu da barriga tagarelando sem parar, já saiu querendo dar opiniões e pitacos sobre viagem, arte, literatura, comportamento e flerte. Que coisa. Virei papai coruja, superbabão...

O meu filhote já está dormindo fora de casa, mas o lançamento está agendado para o dia 10 de Outubro, às 18h, na sala de autógrafos da feira, praça Dante Alighieri. Fica aqui o convite.

domingo, 25 de setembro de 2011

Thanks, Janis!

Quando entro numa churrascaria tudo o que eu desejo mastigar é um bom e clássico churrasco, nada mais. Fico ali com os olhos saltados a namorar o coraçãozinho da Galinha e o sangue apetitoso da Dona Picanha, nada mais. Nem cogito um risoto ou uma pizza, não na churrascaria.

O mesmo vale para um barzinho de música ao vivo. Quando estou ali na mesa com a minha mulher e amigos, tudo o que desejamos é poder conversar, tomar algum drink e escutar um som, na boa, sem empurra-empurra, sem ter contato com aquela turminha que se entorpece de ecstasy e fica espumando por uma pista de dança. Cada tribo na sua aldeia. Cada coisa na sua hora.

Expliquei isso apenas para sintetizar o meu sentimento [o sentimento de todos os vidrados em rock’n’roll] em relação ao Rock in Rio. Colocar o Milton Nascimento pra cantar num festival de rock é forçar a tanga.

A imagem mental que está junto comigo nesta ensolarada manhã de domingo é esta: os anos são os 60; estamos no Festival de Woodstock; hippies enaltecem a contracultura e brindam o amor livre na grande Fazenda de Max Yasgur; de repente, aparece a Cláudia Leitte com o seu axé e pede para fazer uma palinha no Festival; com passinhos rápidos, Janis Joplin se aproxima e dá uma voadeira no pescoço loiro da Cláudia Leitte, e então o mundo e Woodstock estão em paz. Thanks, Janis!

domingo, 18 de setembro de 2011

Entrevista literária

Alguns escritores das antigas – gente da geração beat e arredores – costumavam aparecer meio encharcados para dar entrevistas. Os caras eram imprevisíveis e davam shows durante os bate-papos televisivos: trajes, trejeitos e comentários abusados, espontâneos. O entrevistador precisava rir amareladamente e dar um jeito de contornar o feedback alcoolizado da turma da máquina de escrever. Falava-se sobre muita coisa, não essencialmente de literatura, e era um barato.

Nos dias atualizados, escritores já não mais gargalham com soluços e também não mais colocam o entrevistador em saia de moça abusada. Há uma equilibrada sobriedade na conversa. Porém [desculpa o atrevimento aqui do pivete], às vezes, eu disse às vezes, há excessos na sobriedade. Dias atrás, vi na TV um escritor brazuca exagerando um pouco nas respostas, conversa literária demais, caprichada demais.

Mas por que estou eu a blogar sobre entrevistas literárias?

Acontece que o pivete aqui, dentro de poucos dias, lançará ao vento o seu primeiro livro. O lançamento do Sala de Embarque [Editora Belas-Letras] já está agendado, acontecerá na Feira do Livro de Caxias do Sul, no dia 10 de Outubro, 18h... O que me assusta é que, hum, vai que alguém se invente de apontar um microfone com perguntas literárias para mim... Devo eu beber um trago para soltar o papo, como faziam os monstros da turma beat? Ou devo eu adornar o meu discurso e dar respostas descoladas com linguajar literário-enfeitado, igual àquele escritor brazuca meio metido que vi na TV?

Falando sério... Preciso começar a treinar a minha fala para uma eventual entrevistinha, pois como sou um ex-atleta profissional de futsal [jogador?] estou acostumado a soltar para o microfone respostas mais ou menos deste calibre: “O time tá numa crescente, graças a deus, e a gente sabe da nossa qualidade.”

domingo, 11 de setembro de 2011

Escolhas

A existência dela estava meio bagunçada, pois não se lembrava mais como funcionava o flexível tabuleiro da vida de solteira. O emprego também já não era o mesmo do ano passado – fora despedida, e agora precisava descobrir se o novo trabalho valia mesmo a pena, já que ela acreditava que o cartão-ponto deveria sempre oferecer um pouco de retorno emocional. O preço do aluguel do apartamento-quarto-cozinha havia disparado, “Será que procuro um lugarzinho mais em conta, afastado do centro?”. De repente, descobriu que o curso de Administração não tinha nada a ver com o estilo de vida dela – só que já estava pra lá da metade do curso, “E agora?”. O cabelo longo com todas as variações de penteado sempre foi a marca registrada, mas uma vontade mística a empurrava para um corte bem baixinho, prático e ousado – escolha que poderia soar boba para um homem, mas que era do tamanho do céu para ela. As amigas diziam que ela precisava se inscrever num curso de culinária ou dança, para ficar mais próxima de um flerte em potencial, “Amanhã eu decido por um dos cursos, prometo pra mim mesma”. A vitrine mais chique da vizinhança exibia dois exuberantes estilos de vestido – ela gostara loucamente dos dois, queria os dois, mas era necessário escolher apenas um. Ela nunca antes pensara sobre o dilema “filhos: tê-los ou não”, mas agora sentia um anseio de decidir logo, para seguir o mais rápido possível com a sua nova vida e opção de comportamento. “Salto ou tênis, batom forte ou brilhinho, pub ou discoteca, rezar ou especular, bici ou metrô?”. Mas naquela terça-feira, há exatos 10 anos, depois que um avião kamikaze atravessou o prédio onde ela trabalhava, a única coisa que ela pôde escolher foi o jeito de desaparecer: deixar-se derreter pelo fogo que subia rapidamente pelo WTC ou abrir a janela e se jogar no derradeiro e sombrio abismo da vida. Escolhas.

______[imagem: Manecas Camelo]